A casa dos meus pais.





Uma das coisas mais difíceis que eu tive que falar na minha vida foi: casa dos meus pais. Eu esperei por isso por muitos anos, sempre que pensava em ir ter a minha casa, morar sozinha, ser adulta... pensava até nas minhas contas pra pagar e como eu faria isso dar certo.

 Eu nunca pensei que seria difícil como foi. Eu sai da casa dos meus pais em uma semana por causa da faculdade. Quase da noite pro dia. Fui morar numa cidade que eu não conhecia quase nada - tá, nada que fosse turístico ou restaurantes -, não tinha amigos por lá, nem nome de rua ou onde eram as coisas. Foi uma bagunça. O tempo passou e um mês depois eu estava parcialmente habitada.

Eu sabia que na rua da trás de casa tinha um mercado, se eu precisa-se tirar xerox ou fazer algo em uma gráfica tinha uma há duas quadras da minha casa. O ponto de ônibus era quase em frente de casa e qualquer ônibus que eu pegasse seguiria para o centro da cidade - uns com uma volta maior, outros com volta menor. - porém, nem todos serviam pra eu voltar pra casa. Descobri que os moradores da cidade eram fechados e não falavam bom dia para estranhos... ah e eles também não tem o hábito de sorrir. 

Três meses depois, eu comecei a gostar mais do conforto do meu apartamento. Passei a gostar do barulho dos carros que vinha da rua pela minha janela, mas só no período da noite quando eu chegava da faculdade. Comecei a gostar do silêncio dos vizinhos, mas ficava feliz em saber que o cachorrinho da casa ao lado gostava de me ver sentada na sacada e ia me fazer companhia. Cada um na sua sacada, claro. Comecei a gostar de virar a noite em claro pra ver o sol nascer e esperar alguns minutos a mais antes de ir pra faculdade pra ver ele se por. Comecei a me sentir acompanhada pela lua.

Os meses foram passando e eu morava naquela casa, mas não era a minha casa. Não mesmo. Eu dizia que tinha três casas, a que eu morava durante a semana, a dos meus pais e a da minha vó - Ah, convenhamos que casa de vó é sempre nossa casa. Eu tinha roupas nas minhas duas casas (menos na da vovó), tinha trabalhos, documentos, fotos... tudo espalhado aqui e lá. Na casa da cidade fria, eu tinha uma cama e uma arara de roupa no meu quarto e me limitei a isso por um ano.

Um ano. Teve que passar um ano pra eu aceitar ganhar um guardarroupa. Um ano pra eu ter mais do que vinte e cinco cabides com roupas e uma gaveta na comoda. Um ano pra eu levar quase tudo o que é meu da casa dos meus pais, pra eu colocar coisas na parede, pra eu conseguir pensar o que estava na casa dos meus pais e não naquela casa ou na minha mala. Eu cresci nesse um ano. Aprendi sobre as pessoas daquela cidade, aprendi sobre mim, aprendi sobre o mundo, sobre a vida.

Um ano e meio depois que eu saí de casa e eu falei "casa dos meus pais". E se você pensa que saiu de forma natural, sinto de desiludir, mas não. Saiu travado, engasgado, doído, rasgado, mas saiu. Saiu deixando um nó na garganta desatado, um nó criado a um ano e meio atrás que finalmente foi desfeito. Eu tenho a minha casa e meus pais a deles.

A casa dos meus pais sempre será minha casa, mas agora -finalmente- eu tenho a minha casa. Ainda longe de ser tão minha quanto eu sonhava quando era mais nova, mas minha. E eu aprendi, que sempre será minha casa a casa dos meus pais. Aprendi que o céu sempre vai ser diferente, que as pessoas vão mudar de um lugar para o outro e que casa é diferente de lar. O lar, nosso lar, nós construímos dentro de nós e guardamos quem amamos lá dentro. 

Bem vindos ao meu lar. 

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